Após ganhar destaque no MozFest 2025, o tema da integridade informacional chega à COP30 com protagonismo brasileiro,conectando o combate à desinformação climática à agenda da ONU.
Em meio à corrida mundial por soluções para conter a crise climática, o Brasil dá um passo inédito ao levar à COP30 o debate sobre integridade informacional. O tema, até então ausente das negociações ambientais, ganha espaço institucional nas Nações Unidas com a criação da Iniciativa Global para a Integridade da Informação sobre a Mudança do Clima, lançada pela ONU, UNESCO e Governo Federal.
A proposta surge em um momento em que a desinformação se consolida como um dos maiores obstáculos à ação climática. Notícias falsas e narrativas distorcidas sobre mudanças climáticas comprometem políticas públicas, desacreditam pesquisas e corroem a confiança social necessária para transformar comportamentos e realizar ações.
O tema também ganhou destaque no MozFest 2025, em Barcelona, durante a sessão “Margins No More: Civil Society as a Force in Global Tech Politics”, que reuniu lideranças do Brasil, Índia, Quênia, Namíbia, Reino Unido e Estados Unidos para refletir sobre como a sociedade civil pode enfrentar a concentração de poder tecnológico e reconstruir ecossistemas digitais mais justos.
Na sessão, apresentei a prévia da minha pesquisa “Territórios Digitais”, desenvolvida no âmbito do fellowship da Mozilla Foundation. O estudo tem o objetivo de mostrar como a confiança informacional é construída — e frequentemente corroída — em territórios indígenas e quilombolas. A pesquisa evidencia que o impacto da desinformação não se limita ao campo digital: ele se traduz em decisões cotidianas que afetam a saúde pública, o meio ambiente e a democracia local.
Esses achados contribuíram para que o Brasil se tornasse um dos primeiros países a ter uma pesquisa da Mozilla Foundation reconhecida pelo Banco Global de Soluções da COP30 (ONU/UNESCO) — também conhecido como Celeiro de Soluções. Trata-se de um marco que insere o tema da integridade informacional na diplomacia climática e reforça o papel da sociedade civil como produtora de conhecimento estratégico.
A sessão também destacou que o poder das grandes plataformas e governos tem enfraquecido a capacidade de ação das organizações sociais, muitas vezes cooptando agendas originalmente baseadas em equidade e justiça. Os participantes alertaram que a coragem da sociedade civil não basta em um contexto de escassez, vigilância e manipulação informacional: é preciso articular mensagens coletivas, estratégias e colaborações transnacionais de soberania digital.
Antes de ser formalizada nas instâncias multilaterais, essa discussão já vinha sendo construída nas bordas — em aldeias indígenas, quilombos e periferias brasileiras —, onde a desinformação não é um conceito abstrato, mas uma força que atravessa o cotidiano, impactando e ampliando vulnerabilidades.
Essa abordagem propõe que o enfrentamento à desinformação seja integrado às políticas ambientais, à educação midiática e à democratização das tecnologias. Ao valorizar o conhecimento popular e os saberes tradicionais, o Brasil oferece ao mundo um paradigma de resiliência informacional, em que a confiança é reconstruída a partir do diálogo entre ciência, território e sociedade civil.
A entrada do Brasil na agenda global da integridade informacional marca um ponto de virada: pela primeira vez, o país e a ONU propõem um modelo de enfrentamento à desinformação climática que nasce das margens e se projeta no centro das decisões.
Sobre a autora
Marcelle Chagas é jornalista, pesquisadora e civic tech leader que atua na interseção entre comunicação, integridade da informação e inclusão digital. Como Mozilla Tech & Society Fellow, investiga como confiança, desinformação e ecossistemas midiáticos moldam a participação democrática no Sul Global.
Seu trabalho combina conhecimento aberto, pesquisa participativa e inovação em políticas de comunicação para fortalecer sistemas informacionais mais equitativos e transparentes. Sua missão é criar ecossistemas informacionais baseados na confiança, na comunidade e na diversidade, capazes de sustentar a democracia e os direitos humanos.