A promessa de uma IA verdadeiramente ética e eficaz esbarra em um desafio recorrente: sua tendência a ignorar os territórios.
Por todo o mundo, soluções tecnológicas são desenvolvidas com base em premissas universais que, ao serem aplicadas em contextos diversos, falham em compreender — e atender — às realidades locais. Esse desalinhamento tem impactos sérios.
Em regiões marcadas por desigualdades sociais, como as periferias urbanas e comunidades tradicionais da América Latina, da África e do Sudeste Asiático, a tecnologia pode amplificar injustiças, reproduzindo exclusões em escala algorítmica.
É aí que a experiência brasileira oferece uma chave valiosa para o debate global. O Observatório GERATE (Gênero, Raça e Territorialidade na Ciência) é um exemplo concreto.
Com atuação em favelas e áreas vulnerabilizadas, mapeia como circulam informações e desinformação, identificando os “regimes de autoridade” que determinam o que é crível em cada território.
Essa análise permite criar estratégias de enfrentamento da desinformação baseadas em escuta, redes comunitárias e justiça cognitiva.
Outro projeto com valor internacional é o GriôTech, laboratório de tecnologia cidadã inspirado nos griôs africanos.
Unindo tecnologia e saberes ancestrais, a iniciativa busca promover autonomia digital, letramento antirracista e construção de redes informacionais seguras em comunidades negras e indígenas.
Mais que combater desinformação, o GriôTech propõe reconstituir a cadeia de valor da informação — incluindo vozes historicamente apagadas como protagonistas. Essas experiências revelam um modelo de inovação que não busca apenas escalar, mas focar nas complexidades.
É o que chamamos de IA contextual — uma abordagem que considera fatores linguísticos, culturais, territoriais e socioeconômicos como insumos centrais para o desenvolvimento tecnológico.
Em vez de “corrigir” desigualdades depois que ocorrem, essa IA se antecipa a elas. À medida que o mundo debate regulação da inteligência artificial, é urgente considerar como políticas e ferramentas podem se adaptar às realidades de base.
O Brasil, com seus desafios históricos e sua criatividade política e comunitária, oferece aprendizados valiosos. Se a IA quiser ser relevante globalmente, precisará se inspirar em soluções locais.
O futuro da tecnologia não está apenas nos grandes centros de pesquisa — mas também nas vielas, aldeias, territórios diversos e quilombos. Escutar essas realidades pode ser a revolução que a IA precisa para, enfim, servir à humanidade como um todo.
Marcelle Chagas: jornalista, pesquisadora e Mozilla Tech Fellow. Coordena o Observatório de Gênero, Raça e Territorialidade na Ciência (GERATE), é fundadora do GriôTech e da Rede de Jornalistas Pretos pela Diversidade na Comunicação. Integra a Columbia Leadership Network e o Conselho Alumni da Clinton Foundation.